Herdade do Rocim - prova






















Herdade do Rocim Rosé 2018

Condições atmosféricas: 1 grau no exterior, 19 graus no interior. Ligeira neve e humidade a 20%.
Depois de aberto: Amorangado na garrafa com notas de rosas e amêndoa.

Copo:
Rosa pálido com equilíbrio tonal e na luminosidade. Alguma gordura e também limpo. Um ligeiro gás.
Nariz:
Álcool equilibrado (não muito forte) no nariz. Confirma o amorangado e o facto de não ser muito complexo – o que neste caso não é negativo. Confirma as rosas e o carácter um pouco floral.
Boca:
Confirma o morango, as amêndoas, num início longo e final curto com alguma pimenta e muita pimenta na retroversão. É um vinho que não sendo doce, também não é amargo. Não é bem aquele vinho redondo, mas o circular de aromas fá-lo táctil na resposta do palato. Agradável e à terceira tentativa as notas de laranja sobressaem.

Prato:
Sapateira recheada, Empadão de carne, Bolo de laranja com cobertura de creme branco (iogurte grego, natas e pepitas de chocolate)

Descrição:
Faz lembrar o Verão e temperaturas quentes, apesar da lareira a bombar e da baixa temperatura exterior. Complementa sem sobressair, numa discrição em que assume o seu papel eventualmente secundário na refeição. Permite boas combinações com peixes e mariscos, cujo sabor realça, mas algumas carnes vermelhas serão certamente também uma possibilidade. É versátil sem ser chato, e isso ajuda o monocasta a manter a expectativa no acto de comer e interpretar a refeição. Óptimo com o limão do recheio da sapateira. Com a carne, destaque para a acidez e o álcool. É um vinho mais de mariscos e entradas, embora possa suportar uma boa carne de vaca para quem aprecia o estilo e gosta de furar as regras, ou para quem gosta pouco de vinho tinto. É fantástico com doces e sobremesas porque desliza que é uma maravilha a realçar aquele doce intenso, e a quebrá-lo, o que garante que a dita cuja sobremesa desaparece em três tempos!























Herdade do Rocim Olho de Mocho Reserva 2018 (branco)

Condições atmosféricas: 2 graus no exterior, 19 graus no interior. Ligeira neve a derreter e humidade a 40%.
Depois de aberto: Gordo na garrafa, gorduroso e com notas de jasmim.

Copo:
Branco amarelecido, mas mais branco do que amarelo. Equilíbrio com ligeira espuma (gás) que desaparece rápido ao derramar. Bastante cristalino e limpo do contacto com o vidro. Claro.
Nariz:
Areia e mineral, com algumas tonalidades de algas – a brisa marinha, isto num segundo instante, já a meio da refeição.
Boca:
Muito mineral com um começo curto e notas cítricas, e um final longo em que a acidez se confirma q.b. e a muita “pedra” que lhe define o carácter. Um pouco alcoólico no final, apesar da suavidade a nível aromático.

Prato:
Pasta com gambas fritas em bacon.

Descrição:
Muito gastronómico, com laranja e um toque de amêndoa, ficando o álcool muito salientado (em destaque) no final. É gostoso e confortável, mantém-se conciliador na boca. O Atlântico em brisa sopra em toda a sua extensão – e esta dimensão é incomparável e muito importante. É muito capaz de aguentar peixes gordos como a corvina e tem muita vida, digamos assim, é a vida que ali está. Dá a mostrar a Antão Vaz, uma casta portuguesa, e nisso é exímio pois capaz de tratar da identidade. Um copo com matéria de facto, sem desmerecer os outros vinhos da mesma marca ou gamas diferentes, com enorme qualidade e ao nível de certos vinhos brancos franceses muito mais caros. 
























Herdade do Rocim Amphora 2018 (tinto)

Condições atmosféricas: 0 graus no exterior, 19 graus no interior. 10 cm de neve (e a aumentar) e humidade a 10%.
Depois de aberto: Vegetal na garrafa com notas suaves de barro.

Copo:
Vermelho opaco com alguma intensidade, enorme equilíbrio e maciez em aparente pousio.
Nariz:
As leveduras na sua mutação suave no nariz, parece sentir-se a transição do tempo. Confirma o barro, como peça lateral no volume do todo. Floral q.b., com notas de uva amadurecida e ligeira frescura final.
Boca:
Início intenso e muito picante (apimentado mais mais), com toda a gordura a encher o espectro de variação das mucosas e um final curto bastante frutado (fruta madura). A pimenta persiste. A fruta também intensa, sobressai num segundo trago. Um vinho com começo um pouco fechado. Com a comida sente-se mais a gordura fruto do emparelhamento, o que denota gastronomia na base.

Prato:
Bife de vaca de África (Botswana), com molho de mostarda e guarnição (arroz branco, batata frita) e salada de alfaces e tomatinhos.
Feijoada de osso bucco e legumes e guarnição (arroz branco).

Descrição:
Um vinho que precisa de respirar ou esperar dois anos em adega. Pode esperar mais e respirar de um dia para o outro, como se preferir, e dependendo da intensidade pretendida no acto de comer. Tem na intensidade da fruta, depois da inevitável respiração, um trunfo que vem da “construção” em amphora. É uma moda não só existente em Portugal, para marcar a diferença com outros vinhos, por exemplo amadeirados. Gosto de vinhos amadeirados, e entendo perfeitamente esta abordagem, que realçando um grupo de castas nacionais, vem conferir ao vinho uma delicadeza, elegância e sofisticação consideráveis. O veludo na boca, com o balanço da fruta, é exemplar. Precisa de dois anos de estágio em garrafa e é a melhor aposta com carnes. Muito grastronómico, no limite da perfeição, sobretudo se se frisar o tal do bife pimenta. Ao final de um tempo, nota-se menos o álcool e mais a fruta.

Num segundo trago, 24 horas mais tarde, depois de selado com a rolha de origem, a fruta está a par da pimenta e qualquer estágio mais prolongado irá confirmar essa aceleração e relação. Porque mais anos de garrafa irão atenuar a intensidade deste vinho jovem e viçoso. Digamos assim, é um vinho que se interioriza. Ao final de 15 minutos, na primeira prova, já se está a mostrar. A fruta, redondo, muito agradável na boca. Muito duro no nariz logo de início, e alguma quietude final. Faz falar da maneira correcta. No segundo dia/trago, muito mais pacificado, com notas florais a rosas e quase nenhuma pimenta. É um vinho que aguenta qualquer tipo de carne, aconselhável com pratos como o cozido, onde os enchidos e a carnes (de porco e vaca) precisam de parelha à altura.


Uma nota final:
Conheço o Pedro Ribeiro de o ter encontrado numa feira de vinhos realizada na antiga FIL, em Lisboa, numa incursão realizada há uns bons anos, quando também falei com muitos outros produtores, interessados e profissionais do sector. Desde então frequentei muitas outras feiras do género, como é natural, mas nunca mais falámos. Do que me lembro da altura, a conversa foi sobre os vinhos que estava a representar (que não a sua), e ele demonstrou uma generosidade e disponibilidade que é muito frequente encontrar em pessoas do sector. Lembro-me também da enorme assertividade. Desde então, acompanhei o seu percurso profissional com atenção, até ele ter assumido a Herdade do Rocim, certamente um projecto que esteve em laboração largos e bons anos. Os resultados estão à vista. Em diferentes gamas. Os textos, estão também disponíveis aqui.

 

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